A Gronelândia é uma terra de contrastes monumentais. Numa mesma viagem, num mesmo dia, podemos tocar nos vestígios silenciosos da história militar mundial e, horas depois, partilhar a alegria universal de um jogo de futebol com uma comunidade local isolada no Ártico. O último capítulo da minha expedição pela costa gronelandesa foi exatamente isso: uma imersão profunda nos segredos e na alma vibrante do leste da ilha.
Se no episódio anterior testei os meus limites ao mergulhar nas águas geladas, agora a aventura levava-me a um território marcado pela história e pelo risco real da natureza selvagem. O destino: os restos da Bluie East Two, uma base aérea secreta americana abandonada desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Bluie East Two: Um Museu a Céu Aberto (e Território de Ursos Polares)
Desembarcar em Ikateq, o local da antiga base, é como entrar num filme. A primeira coisa que salta à vista não são os destroços, mas a beleza do local e, no meu caso, o fato de que os guardas armados começaram a se posicionar.

Sim, a região é território de ursos polares, e qualquer exploração em terra exige um protocolo de segurança rigoroso, com vigias posicionados estrategicamente. A tensão é real, apesar de que em alguns momentos esquecemos disso pela curiosidade que o lugar gera, e sua beleza incrível.
Bluie East Two foi uma das bases construídas pelos EUA na Gronelândia durante a Segunda Guerra Mundial, após um acordo com a Dinamarca (que estava sob ocupação alemã).
A sua localização remota e escondida entre fiordes era péssima para a aviação, mas ideal para operações secretas, servindo como ponto de apoio crucial para voos transatlânticos, missões meteorológicas e de resgate.
Abandonada abruptamente em 1947, a base ficou como um testemunho congelado no tempo. Centenas de barris de combustível, veículos enferrujados, estruturas desmoronadas – um “cemitério” de metal espalhado pela tundra.

Hoje, existe um esforço da Dinamarca e da Gronelândia para limpar a contaminação ambiental deixada para trás, mas debate-se se os destroços não tóxicos deveriam permanecer como um museu a céu aberto, parte da história complexa da ilha.
E esta nem foi a única presença militar americana “secreta”. Durante a Guerra Fria, os EUA chegaram a construir a Camp Century, uma base subterrânea sob o gelo, parte do Projeto Iceworm, que visava esconder mísseis nucleares perto da União Soviética. O projeto foi abandonado devido à instabilidade do glaciar. Explorar Bluie East Two é, portanto, tocar numa história muito maior e mais complexa.
Tasiilaq: Cor, Vida e Modernidade no Leste
Deixando para trás os fantasmas da guerra, a jornada continuou até Tasiilaq, o maior centro populacional da costa leste da Gronelândia, com cerca de 2.000 habitantes. Que contraste! Tasiilaq é um vilarejo vibrante, colorido e surpreendentemente moderno.

Casas coloridas espalham-se pela encosta, um supermercado bem abastecido, lojas diversas, e uma quantidade impressionante de crianças a brincar pelas ruas, sempre com um cumprimento simpático. Apesar do isolamento (só se chega por barco ou helicóptero), a sensação é a de uma pequena cidade organizada e cheia de vida.

Curiosamente, mesmo aqui, o perigo dos ursos polares é uma realidade – fomos aconselhados a não passar do cemitério local. Tasiilaq também mostra a resiliência gronelandesa, com projetos experimentais para tentar cultivar vegetais apesar do clima extremo e do permafrost.
Kuumiut: Futebol, Café e a Alma Gronelandesa
A última paragem antes da travessia para a Islândia foi Kuumiut, um vilarejo mais pequeno (cerca de 250 habitantes) e com um ar mais “bruto” do que Tasiilaq. Foi aqui que a viagem me reservou a sua maior surpresa.
Ao passear pelas ruas poeirentas, entre casas que pareciam mais desgastadas pelo tempo, deparei-me com um campo de futebol de relva artificial impecável. Um oásis verde no meio do nada. Mal sabia eu o que estava para vir.

Antes disso, tive a oportunidade de ser convidado para tomar um café na casa de uma família local. Um momento simples, mas profundamente humano, partilhando histórias e sorrisos, que me permitiu espreitar a realidade quotidiana e os desafios da vida no Ártico, incluindo questões sociais complexas como o alcoolismo.
Vi também a carcaça de um urso polar caçado recentemente, um lembrete da relação intrínseca entre os habitantes e a natureza selvagem.
E então, ao voltar para perto do campo, a surpresa: estava cheio de gente, a preparar-se para o “clássico” anual entre os locais e os “forasteiros” do navio. E sim, fui convidado a jogar! Equipado com roupa de esqui e botas de caminhada, lá fui eu reviver os meus tempos de “camisa 10”.

Perdemos 2×1, mas a experiência foi uma vitória inesquecível. Ver a alegria, o talento (sim, eles jogam muito!) e a união daquela comunidade através do desporto foi, talvez, a lição mais valiosa de toda a viagem.
A Despedida: Aurora e Lua Cheia
De volta ao navio, a caminho da Islândia, a Gronelândia ainda me ofereceu um último espetáculo: uma Aurora Boreal rara, a dançar no céu ao lado de uma Lua Cheia brilhante. A despedida perfeita para uma terra de contrastes, desafios e uma beleza humana e natural que me conquistou definitivamente.
Esta viagem pela Gronelândia foi muito mais do que visitar um lugar exótico. Foi uma jornada pela história, pela natureza no seu estado mais puro e, acima de tudo, pelas incríveis conexões que podemos fazer nos cantos mais inesperados do planeta.
E se você quer ver todos os vídeos sobre essa incrível viagem do Oeste ao Leste da Groelândia, não deixe de ver a Playlist dessa trip, lá no Youtube (e abaixo). Até a próxima aventura, Bigodudos e Bigodudas queridas.

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